Nas Entrelinhas - Denise Rothenburg





Quem está louco para ver Leonardo Prudente fora da Câmara Legislativa é bom começar a recuperar os passos do escândalo que arrastou o ex-presidente do Senado Renan Calheiros (PMDB-AL) para uma tempestade que parecia não ter fim. Prudente hoje se olha no espelho e, juram seus amigos, tenta se inspirar em José Sarney, que ficou na presidência do Senado. Como é praticamente impossível o deputado permanecer como presidente da Casa, Prudente se mira em Renan.

A comparação aqui não se refere ao mérito do caso. Renan não foi flagrado com dinheiro na meia. Ele colocou o pé na calçada da lama em maio de 2007. Naquele mês, foi publicada a denúncia de que a pensão de sua filha era entregue por um funcionário de uma empreiteira, seu amigo de longa data. Não houve vídeos. Nem outros senadores e o Poder Executivo federal envolvidos na história.

O paralelo que se faz aqui se refere às manobras políticas em curso. Renan começou se explicando ao plenário, depois, ao Conselho de Ética da Casa. Tudo como presidente do Senado. No primeiro julgamento sobre seu caso, continuou presidente. Em conversas reservadas, costumava dizer que, se saísse do cargo, seria o mesmo que assumir uma culpa por um fato do qual ele se dizia inocente - de que quem pagava a pensão era a empreiteira e não o amigo usando um dinheiro entregue pelo senador.

Como presidente do Senado, Renan continuou assinando contratos, dando ordens e as cartas políticas da Casa. Sabia do que ocorria em cada departamento do Senado. Prudente, desde o dia 30 de dezembro, faz o mesmo. É o comandante do Poder Legislativo local. E, a menos que tenha um lapso de lucidez até esta segunda-feira, quando a Câmara retoma os trabalhos, e decida sair, o deputado continuará assinando contratos, encomendando móveis para a nova sede e por aí vai.

Renan sabia que, se deixasse a Presidência do Senado de bate-pronto, lá em maio de 2007, não teria como preservar o mandato. Ele só deixou o cargo em 11 de outubro, numa licença temporária. Depois, pegou uma licença médica do mandato. Foram oito meses da primeira reportagem sobre ele até a renúncia à Presidência do Senado, em dezembro, quando foi absolvido pela segunda vez em votação em plenário.

Prudente, ainda que não tenha a experiência política de um Renan Calheiros, faz os mesmos cálculos. Até ontem, ele previa que, se deixasse a presidência da Casa rápido, não teria poder de fogo e nem cacife político para forçar a base de Arruda a lhe preservar o mandato - o que ele realmente quer.

Em 2007, houve um momento em que Renan sentiu cheiro de fritura sob seus pés, com origem na primeira vice-presidência do Senado ocupada à época por Tião Viana (PT-AC). Prudente sente o óleo esquentando sob seus pés. A meia já encharcou. Só que o fogo foi aceso pelo Governo do Distrito Federal. Ao ver o governador José Roberto Arruda desfilando lépido e fagueiro, dizendo que perdoa aqueles que lhe julgaram mal, Prudente ficou ainda mais convicto de que é a bola da vez. E tem medo de terminar como o único punido nesse enredo, o caso esquecido, e os demais parlamentares e autoridades livres.

Prudente já percebeu que, conforme apontam as pesquisas, o governador ainda tem mais de 20% do eleitorado. Mantém a caneta na mão e a chave do cofre. Com esses três instrumentos, tem a seu favor uma maioria dentro da Câmara Legislativa. Seus aliados calculam que basta administrar o tempo para que ele consiga terminar o mandato. Hoje, até uma parte dos adversários do Arruda prefere que ele termine o mandato, mesmo desgastado. Há quem considere arriscado que, uma eleição indireta para governador termine por colocar o GDF nas mãos de uma cara nova capaz de concorrer à reeleição e tirar as chances de quem vislumbra concorrer.

O problema de todos os cálculos que Prudente adota mirando-se no exemplo de Renan Calheiros é a diferença de época. Em 2007, os senadores estavam bem longe da eleição. E hoje torcem para que a maioria dos eleitores tenha esquecido daquele episódio. Mas, os distritais, daqui a seis meses terão que prestar contas de suas ações àqueles que os elegeram. E, com esse calendário tão apertado, há na base de Arruda quem prefira afastar logo Prudente para preservar o todo e tentar exorcizar o fantasma do troca-tudo que tem tirado o sono de muito deputado distrital.

Para completar as diferenças entre o episódio Renan e o escândalo do DF, há outros personagens no enredo local que estão atuando firme e silenciosamente com o rigor que a situação merece. Nesse rol estão o Superior Tribunal de Justiça, o Ministério Público e a Polícia Federal. Autoridades do governo federal têm dito em conversas reservadas com políticos que ainda há muito o que tirar da Caixa de Pandora. Fala-se em novas denúncias. E, pelos ventos que têm soprado da Polícia Federal, as água de março virão mais quentes e fortes do que esse período parlamentar pré-carnavalesco que começa na segunda-feira.

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