A 03 de Junho de 1964 o discurso de JK teve como tônica a iminente cassação.
"Na previsão de que se confirme a cassação dos meus direitos políticos, que implicaria na cassação do meu direito de cidadão, julgo do meu dever dirigir, desta tribuna, algumas palavras à nação brasileira. Faço-o agora, para que – se o ato de violência vier a consumar-se – não me veja eu privado do dever de denunciar o atentado que na minha pessoa vão sofrer as instituições livres. [...] Neste momento, sinto uma perfeita correlação entre a minha ação presidencial e a iníqua perseguição que me estão movendo. [...] Se me forem retirados os direitos políticos – como se anuncia em toda parte –, não me intimidarei, não deixarei de lutar. Do ponto de vista da minha biografia, só terei de que me orgulhar desse ato. [...] Mas querendo eu ou não, a semente da injustiça, do arbítrio, da maldade, da crueldade, da violação da pessoa humana, do desrespeito, medrará, crescerá, dará frutos e depois – como tem acontecido invariavelmente – o castigo chegará, levando tudo de vencida."
Depois de fazer seu último discurso no Senado, a 3 de junho de 1964, JK seguiu de carro para Belo Horizonte e de lá para o Rio de Janeiro, numa viagem cheia de peripécias determinadas por um clima de constante apreensão. Pretendia asilar-se na embaixada da Colômbia, na avenida Rui Barbosa. Mas, como havia pessoas suspeitas nas proximidades, JK entrou no prédio ao lado – e ali, com a ajuda de uma escada, saltou o muro. Foi recebido pelo embaixador colombiano, Dario Botezo.
Começaram entendimentos para que o ex-presidente fosse refugiar-se na residência do embaixador da Espanha, no mesmo edifício onde morava, na avenida Vieira Souto. A Espanha não tinha acordo de asilo político com o Brasil, mas o embaixador Jaime Alba Delibes, depois de consultar seu governo, acolheu JK.
A cassação do ex-presidente e a suspensão de seus direitos políticos foram anunciadas pelo Secretário de Imprensa José Vamberto no Palácio do Planalto no programa A voz do Brasil. No dia 13, JK embarcava para Madri, iniciando um exílio que duraria 976 dias.
Considerando o panorama, configurado pelos princípios que norteavam o país desde a O Golpe Militar de 31 de Março, a carismática popularidade de JK e sua proximidade a João Goulart davam indícios que a cassação era questão de tempo.
Em 2004, ao rememorar os 40 anos de cassação de JK, o então senador por Minas Gerais, Hélio Costa, disse que: - Não se cassava, ali, apenas mais um mandato político. Para o infortúnio dos brasileiros, cassava-se uma das maiores vocações da política nacional, um extraordinário talento na arte de governar e a esperança de se recolocar o Brasil no caminho do progresso e do desenvolvimento econômico e social, em curto prazo.
Eleito para o Congresso por Goiás em 1961, JK foi expurgado isoladamente, mas logo encabeçou um encorpado rol de desafetos do Governo Castelo Branco que foram perdendo mandatos e direitos políticos. Senadores, governadores, deputados, juízes e ministros dos tribunais superiores, estaduais e federais. O furor no cenário político estremeceu o otimismo de JK, induzindo-o a repensar seus planos. No final da tarde de 13 de junho o ex-presidente embarcava para a Espanha em companhia de Dona Sarah.