Cenário da construção civil é de recuperação

Maria Carolina Ferreira | Jornal do Commercio

Com margens pressionadas por altos níveis de endividamento e pela forte desaceleração do ritmo de vendas, a maior parte das grandes construturas brasileiras deverá apresentar números fracos nos balanços para o quarto trimestre de 2011, que serão publicados em fevereiro e março, projetam analistas ouvidos pelo Jornal do Commercio. O desempenho na reta final do ano passado não deverá, contudo, surpreender o mercado, que vem lendo sinais claros do delicado estado das incorporadoras nas prévias operacionais divulgadas por algumas delas. Em meio a expectativa de uma lenta acomodação da demanda, especialistas fazem prognósticos mais animadores para 2012. Segundo eles, até as empresas mais debilitadas poderão mostrar números melhores a partir dos próximos trimestres, caso consigam reduzir suas dívidas e aumentar a rentabilidade de seus negócios.

O integrante da equipe de análise da Um Investimentos William Tseng projeta que o movimento de retomada deverá ganhar força na segunda metade de 2102, sendo puxado pela entrada das receitas provenientes dos empreendimentos vendidos em 2008 e 2009. Ele estima que o alívio financeiro será combinado com uma política de redução no volume de lançamentos das empresas.

Neste contexto, a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) calcula que o setor terá expansão anual de 5,2% em 2012, ante os 4,8% esperados para 2011. A recuperação deve suceder um ano problemático em que o setor passou por forte desaceleração, depois de ter experimentado rápido crescimento em 2009 e 2010. Não bastasse o menor dinamismo do mercado em 2011, a lista de problemas enfrentados pelas incorporadoras no período é longa. Os recorrentes estouros em orçamentos de custos – causados por uma crescente escassez de mão de obra especializada, atrasos na entrega de obras e parceiras mal sucedidas – podem ser considerados os mais graves.

Apesar da expectativa de retomada para o setor, o analista do BB Invetimentos Wesley Bernabé afirma que a Gafisa tem um cenário complicado pela frente. Ele ressalta ser difícil fazer projeções sobre o futuro da companhia, que recentemente admitiu ainda não saber a real extensão dos problemas gerados com a integração da Tenda, divisão voltada para atender à população de baixa renda, comprada em 2008. "Os executivos não sabem ao certo se a empresa já chegou ao fundo do poço, ou se ainda há muita coisa ruim para sair do armário", aponta.

As dificuldades com o processo de integração do ativo ganharam proporção quando parcela significativa dos clientes, que haviam sido enquandrados no sistema de pré-aprovação de crédito da companhia, não conseguiram adquirir financiamento bancário para arcar com a compra dos imóveis contratados.

Em um esforço para se levantar do chão, a Gafisa tem feito investidas em duas frentes. De um lado a empresa aumentou o foco nos empreendimentos para as classes de média e alta por meio das operações próprias e da Alphaville, divisão que tem apresentado bons resultados. Além disso, a companhia tem buscado diminuir o volume de lançamentos da Tenda, realizando apenas aqueles, cujo repasse de financiamento bancário seja imediato.

A estratégia da empresa, considerada acertada pelo mercado, ficou evidente na prévia operacional divulgada na última quinta-feira. Segundo o documento, os lançamentos realizados em 2011 somaram R$ 3,5 bilhões, ponto mínimo do guidance previsto para o ano, que ia até R$ 4 bilhões. O valor é 21% menor que o reportado no exercício anterior. Em comunicado, a companhia informou que a queda reflete a desaceleração intencional nos negócios lançados pela Tenda, que totalizaram R$ 398 milhões no ano passado, recuo de 75% ante o apurado em 2010. "Optamos por segurar os lançamentos da divisão e cancelar contratos com potenciais proprietários que não mais se qualificam para o crédito imobiliário bancário", afirmou o diretor-presidente do grupo, Duilio Calciolari, em nota.

Apesar do intenso trabalho para estancar os problemas com a Tenda, Tseng avalia que a recuperação da Gafisa será demorada. "Todo o investimento utilizado para a construção dos projetos cancelados não terá retorno futuro e isso deverá prejudicar os resultados dos próximos meses", aponta. Ele calcula que a política de cancelamento deve atingir cerca de 12.000 mil empreendimentos de baixa renda. "A boa notícia é que a medida deve ajudar bastante a incorporadora, que estava tendo enormes prejuízos com o negócio e agora precisa arrumar a casa para conseguir recuperar rentabilidade gradualmente", explica.

O técnico avalia como improvável a possibilidade de a empresa tentar se desfazer do ativo para minimizar seus problemas. "Na situação atual, a companhia dificilmente encontraria compradores para a Tenda", conjectura.

Na avaliação do analista-chefe da Coinvalores, Marco Aurélio Barbosa, a Gafisa deveria se esforçar para salvar a divisão, tendo m vista o promissor futuro projetado para o mercado de baixa renda. "Seria mais sensato manter um braço forte no segmento, na tentativa de aproveitar a rápida expansão da demanda, que tem sido alimentada pelo programa de financiamento publico Minha Casa Minha Vida", ressalta.

Mesmo com a recente explosão da procura por imóveis mais baratos, Tseng que diversas companhias sinalizaram que deverão diminuir as apostas no segmento. Segundo ele, fatores como a alta competitividade na área, menor taxa retorno dos empreendimentos deste tipo e a necessidade de apurado know how técnico para lucrar com o negócio estariam por trás da decisão das empresas. "Boa pare das incorporadoras que decidiram se arriscar neste ramo tiveram suas margens bastante reduzidas tanto como resultado de um certo despreparo quanto pela demora das instituições financeiras em liberar financiamentos", lembra. Além disso, aponta, este mercado está passando por mudanças, na medida em que os clientes se tornam mais seletivos em relação a suas compras.

A exceção ficaria por conta da MRV, empresa completamente voltada para o segmento de baixa renda. Com maior experiência no ramo que suas rivais, a companhia tem conseguido manter seu fôlego a partir de pesados investimentos em construção pré-moldada, sistema que acelera o ciclo construtivo e possibilita a rápida entrada de recursos no caixa da construtora.

O ânimo de MRV é tal que a empresa pretende expandir suas fronteiras geográficas, indo mais uma vez na contramão das demais construtoras, que desde de o fim de 2010 têm optado por rever suas políticas expansão territorial, após tentativas não tão bem sucedidas. O projeto pode, contudo, render frutos melhores para a companhia, que tem em seu favor, além do apurado conhecimento do mercado em que atual, o controle quase completo do processo construtivo (o que diminui a necessidade de terceirizar etapas das obras) e o menor nível de endividamento entre as gigantes do setor.

Nos cálculos de Tseng, a alavancagem da companhia atingiu o percentual de 33% no terceiro trimestre, vantagem considerável em relação à Cyrela (58%), que apresentou o segundo resultado mais baixo. Na lista, as empresas foram sucedidas por Rossi (66%), PDG (73%) e Gafisa (em torno 75%). "Como se trata de um negócio que exige muito capital de giro, o mercado avalia como positivo qualquer número abaixo de 50%", diz, ressaltando que a MRV deverá apresentar as melhores taxas de crescimento do setor em 2012.

Bernabé, da Coinvalores, projeta que a Rossi também deverá ter desempenho acima da média este ano. Segundo ele, a companhia já sinalizou que se esforçará para controlar o significativo aumento na linha de despesas comerciais e de markleting apurado no ano passado. "Eles divulgaram um guindance no qual projetam crescimento zero da rubrica", lembra. Com o cumprimento da meta, afirma, a empresa manejará diminuir a notícia despesa e receita.

Tseng afirma que a Cyrela, por sua vez, tem pela frente um caminho um pouco mais tortuoso. O desempenho da empresa em 2011 foi prejudicado devido a dificuldades em controlar o orçamento de obras desenvolvidas com parceiros. Para acabar com o problema e recuperar a rentabilidade perdida, a companhia pretende aumentar a fatia própria em novos empreendimentos.

Bernabé, da BB Investimentos, lembra que a estratégia já começou a surtir efeito. Segundo ele, a companhias mostrou ligeira recuperação financeira, com melhora de margens e de rentabilidade os resultados, nos resultados do terceiro trimestre. Ele Espera que os números dos três meses finais de 2011 indiquem que a empresa segue nesta tendência. "O caminho da retomada, contudo, será longo e deverá ser percorrido a passos lentos", adverte. A formação de parcerias locais foi a medida adotada pela construtora para conseguir explorar mercados em franca trajetória de crescimento, como o do Nordeste e Norte.

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