O vigoroso crescimento que o mercado de trabalho brasileiro tem sustentado nos últimos anos não é suficiente para esconder os entraves que dificultam o preenchimento de vagas. A avaliação vem de especialistas, que são unânimes em projetar que a escassez de profissionais qualificados impedirá que o Brasil tire o máximo proveito do atual ciclo de crescimento econômico.
Para o professor de economia da Universidade Federal Fluminense Francisco Barone, o País se atrasou em formar profissionais para atender à demanda vinda de áreas como infraestrutura, serviços e tecnologia da informação. Segundo ele, tal demora gerou dois tipos de defasagem que comprometem a evolução sustentável do mercado trabalho. A primeira seria o descompasso entre o tempo gasto na formação dos trabalhadores e as atuais necessidades de determinados setores. Já a segunda seria o hiato entre a capacidade dos indivíduos recém-formados e o nível de experiência exigido para o preenchimento das vagas existentes. "Um engenheiro que acaba de sair da faculdade, por exemplo, não está apto o suficiente gerenciar de forma eficiente grandes equipes nos canteiros de obras que estão espalhados pelo Brasil", observa.
Barone aponta que a conjuntura acaba forçando o retorno de trabalhadores aposentados ao mercado de trabalho e estimula empresas a importar trabalhadores, na tentativa de suprir a carência de mão de obra. "Trabalhadores da Bolívia, da Colômbia e até do Paraguai estão vindo para o Brasil para suprir a demanda que não está sendo atendida, principalmente no setor de construção civil", afirma. Segundo ele, a imigração profissional, é semelhante ao processo que ocorreu na Irlanda há alguns, quando o país recebeu uma grande leva de imigrantes do Leste europeu, que ajudaram a sustentar o boom econômico local.
O economista calcula que o País não tem mais prazo hábil para corrigir as falhas estruturais a tempo para aproveitar todo o potencial de crescimento embutido no ciclo virtuoso. "Quando os profissionais em formação estiverem prontos, a economia doméstica já terá entrado em período de recessão, o que deverá ocorrer por volta de 2017", projeta, esclarecendo que a alternância de ciclos é parte da dinâmica econômica. O professor ressalva que há maneiras de minimizar os problemas existentes, como a criação de cursos técnicos de curta duração voltados para os segmentos onde a escassez de profissionais é mais crônica.
Para Barone, problemas relacionados ao gargalo de capital humano qualificado não deverão ser resolvidos nem no longo prazo. A análise é feita com base no argumento de que a grade de formação do Brasil não está em sintonia com a evolução sócio-econômica do mundo, sendo, ao contrário, voltada para suprir a demanda imediata e a que será gerada no curto prazo. "O que nos precisávamos era de desenvolver um complexo tecnológico nas linhas do Vale do Silício nos Estados Unidos, pois estudos indicam que a em vinte ou trinta a oferta de empregos estará concentrada na área de tecnologia da informação", salienta.
Mais otimista, o economista do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas Rodrigo Leandro de Moura acredita que há uma solução para o problema. Segundo ele, o gargalo de mão de obra pode ser corrigido nas próximas décadas caso o governo decida investir pesado para melhorar o sistema de educação de base, seguindo o exemplo da estratégia adota pela Coreia do Sul há alguns anos. Ele afirma que em seguida o gasto poderia ser reduzido com a realaocação dos recursos. "Os coreanos estão colhendo os furtos do maciço investimento feito na área há alguns anos", lembra.
Enquanto a solução não vem, Moura projeta a indústria será um dos setores que mais sofrerá com a carência de mão de obra este ano. Segundo ele, a atividade a atividade fabril foi tão afetada pelo problema em 2011, porque passou por um período de recessão, que resultou na desaceleração do fluxo de contratações. O aporte, afirma, teria que ser bastante elevado durante os primeiros anos da reforma educacional para que haja margem para criação de uma estrutura adequada. "O fantasma da falta de capital humano qualificado deve voltar em 2012, na medida em que o setor ingressar em trajetória de recuperação", especula.
Com base em dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego, Moura avalia que o movimento de retomada do setor produtivo já começou. Conforme informações do Caged, o saldo líquido da geração de vagas formais na indústria de transformação apenas foi negativo em 13,3 mil postos em outubro, mas se tornou positivo em 4,7 mil, em novembro; e fechou dezembro em mais 30,6 mil.
O sócio da área trabalhista do TozziniFreire Advogados Maurício Tanabe acrescenta que, que para driblar a falta de pessoal capacitado as empresas terão que aumentar os investimentos em cursos internos de aperfeiçoamento, iniciativa há muito praticada no mercado. "Fica cada vez mais claro que não adianta esperar pela chegada de pessoal qualificado ou tentar brigar por funcionários já empregados nas concorrentes", observa.
O especialista acrescenta que para aumentar as chances de fisgar e manter os trabalhadores profissionais, as empresas estão tendo que elaborar contratos cada vez mais atraentes. As iscas oferecidas pelas companhias vão desde altos salários, até cursos de especialização, planos previdenciários e participação nos lucros. "Aliar as ferramentas de retenção à política de qualificação é fundamental preservar capital humano especializado dentro de casa", aponta.
Além de impor entraves ao desenvolvimento da economia, a falta de capital humano qualificado pode resultar na inflação dos salários em setores onde a carência de trabalhadores é maior. Economistas temem que o movimento pressione ainda mais os preços, na medida em que empresários repassem o crescimento do custo produtivo para o consumidor.
Moura destaca que a inflação dos salários já é uma realidade na construção civil. "Em base anual, a remuneração em termos reais no setor cresceu em R$ 13 em dezembro, ritmo de expansão inferior apenas ao observado na área de serviços, onde o aumento foi de R$ 14"afirma. Segundo ele, a média ponderada para os todos os setores da economia foi R$ 24.