RUY CASTRO
A esta hora, salvo zebra, a Secretaria de Cultura do Estado do Rio já terá recebido da boate Help as chaves do prédio que toma quase um quarteirão da avenida Atlântica, em Copacabana. Na segunda-feira, começa a erguer-se o tapume com imagens de Pixinguinha, Carmen Miranda, Oscarito, Dercy Gonçalves, Tom Jobim, Leila Diniz e muitos mais, personagens do novo Museu da Imagem e do Som, a ser construído ali.
O MIS carioca, fundado em 1965 e pioneiro e patrono de todos os MIS do Brasil, nunca dispôs de instalações à altura de seu acervo - entre muita coisa que só ele tem, o arquivo do radialista Almirante, a coleção do fotógrafo Augusto Malta, toda a Rádio Nacional em acetato e 2.000 depoimentos dos maiores nomes do teatro, cinema, literatura, dança, artes plásticas e música popular e erudita do País.
O novo MIS incorporará também o Museu Carmen Miranda, tirando-o do seu esconderijo no Parque do Flamengo e abrindo-o à visitação, inclusive à noite e nos fins de semana - e em Copacabana.
Há quem defenda a Help em nome da 'tradição' de Copacabana. Besteira. A Help, filha dos anos 80, só representa o longo domínio espanhol sobre a noite do Rio. Tradição no bairro é o Copacabana Palace, o clube Marimbás, o cinema Roxy, o restaurante A Marisqueira, os prédios art déco do Lido, até a Modern Sound.
As moças da Help não terão problema - a profissão mais antiga do mundo sempre soube se virar. Quanto aos turistas sexuais, serão substituídos por gente interessada em arte, educação e cultura, que são os melhores valores que as cidades têm hoje para vender. Vide o Museu do Futebol, em São Paulo, cujo modelo interativo será seguido pelo novo MIS.
Copacabana, que já pagou em dobro por seus pecados, começa a renascer sem nunca ter morrido.