Pela primeira vez na história, o Índice Geral de Preços - Disponibilidade Interna (IGP-DI) encerrou o ano em deflação, e terminou 2009 com queda de 1,43%, após subir 9,1% em 2008. Usado como indexador das dívidas dos estados junto à União, o IGP-DI também mostrou deflação de 0,11% em dezembro, ante alta de 0,07% em novembro.
A crise global foi a grande responsável por derrubar o índice, o mais antigo entre os calculados pela Fundação Getulio Vargas (FGV), com série histórica iniciada em 1944. O cenário turbulento causou quedas e desacelerações de preços no atacado, varejo e construção civil, além de provocar valorização do real ante o dólar, o que reduziu preços de produtos relacionados à moeda norte-americana.
O cenário de deflação, porém, não deve continuar este ano, segundo o coordenador de Análises Econômicas da fundação, Salomão Quadros. Na avaliação do especialista, a trajetória de queda de preços ao longo de 2009 foi guiada por um cenário de recessão e de desaquecimento econômico no Brasil, fatores que não se encaixam nas perspectivas para 2010, que deve ser um ano de retomada na economia e aquecimento na demanda doméstica.
Para Quadros, a deflação apurada em dezembro foi passageira, causada por alimentos in natura em queda no atacado (de -4,86%), e o mês de janeiro deve voltar a mostrar aumento de preços no IGP-DI. Quadros não descartou a possibilidade de descumprimento da meta inflacionária para 2010, prevista em 4,5%, devido ao risco de aumento na demanda do mercado interno, por conta da trajetória de recuperação econômica do País, o que eleva preços, no varejo.
No caso dos três indicadores que compõem o IGP-DI de dezembro do ano passado, o Índice de Preços por Atacado - Disponibilidade Interna (IPA-DI) caiu 0,29% em dezembro, ante queda de 0,04% em novembro. O Índice de Preços ao Consumidor - Disponibilidade Interna (IPC-DI) teve aumento de 0,24% em dezembro, ante elevação de 0,26% em novembro. Já o Índice Nacional de Custos da Construção - Disponibilidade Interna (INCC-DI) subiu 0,1% em dezembro, ante alta de 0,29% em novembro.
"A tendência é que haja ao longo do ano um risco de superação da meta inflacionária. A economia está em uma fase de aquecimento" afirmou o especialista. "Não vai haver explosão inflacionária. Não é um risco de inflação elevada e, sim, um risco de não cumprimento da meta", resumiu.
deflações. O cenário deste ano deve ser bem diferente do ambiente de preços em 2009, que, além de uma queda anual recorde no índice geral, mostrou deflação de 4,08% nos preços atacadistas, que subiram 9,8% em 2008. Houve fortes deflações tanto em produtos industriais quanto nos agrícolas. É o caso das quedas registradas em minério de ferro (-44,11%), adubos e fertilizantes compostos (-45,48%), bovinos (-9,82%), arroz em casca (-19,48%) e mandioca (-24,65%). "O atacado foi o setor que mais contribuiu para a deflação, entre os três pesquisados pela FGV", analisou o técnico.
O varejo e a construção civil também ajudaram no recuo da taxa de 2009. Os preços ao consumidor encerraram o ano passado com alta de 3,95%, abaixo do desempenho de 2008 (6,07%). Já a inflação na construção civil terminou com alta de apenas 3,25%, a menor em 11 anos e quase quatro vezes inferior à apurada em 2008 (11,87%).
O IPA (Índice de Preços por Atacado) registrou queda de 0,29% em dezembro, retração maior que a de 0,04% vista em novembro. O índice relativo a Bens Finais recuou 0,43%, contra alta de 0,43% um mês antes, com a contribuição do subgrupo alimentos in natura (de 2,08% para -4,86%). Excluídos alimentos in natura e combustíveis, o índice caiu 0,07%, contra alta de 0,14% em novembro.
bens intermediários. O índice do grupo Bens Intermediários ficou estável em dezembro, após queda de 0,31% no mês anterior. O destaque ficou por conta do subgrupo suprimentos (de -2,73% para -1,30%). Excluídos combustíveis e lubrificantes para a produção, o índice teve leve queda de 0,03%, contra recuo de 0,38% um mês antes.
No estágio das Matérias-Primas Brutas, houve recuo de 0,56% em dezembro, contra 0,25% em novembro. Os destaques foram os itens: soja em grão (0,01% para -3,29%), milho em grão (2,90% para -4,17%) e laranja (12,82% para 1,24%). Já os preços dos itens café em grão (-1,80% para 5,42%), arroz em casca (-3,33% para 4,14%) e leite in natura (-6,10% para -4,12%) aceleraram.
O Índice de Preços ao Consumidor (IPC) registrou alta de 0,24% no mês passado, abaixo do 0,26% visto em novembro. Os destaques foram os grupos Alimentação (0,27% para 0,20%) e Habitação (0,26% para 0,14%), em particular nos itens: hortaliças e legumes (4,59% para -1,06%) e tarifa de eletricidade residencial (0,49% para 0,15%).
Já os preços nos grupos Vestuário (0,92% para 1,02%), Saúde e Cuidados Pessoais (0,06% para 0,24%), Transportes (0,22% para 0,30%), Despesas Diversas (0,05% para 0,17%) e Educação, Leitura e Recreação (0,29% para 0,30%) subiram, com destaque para os itens: calçados (0,81% para 1,56%), artigos de higiene e cuidado pessoal (-0,66% para 0,06%), tarifa de táxi (0,00% para 5,85%), cerveja (0,66% para 2,80%) e passagem aérea (2,37% para 5,53%). O núcleo do IPC subiu 0,33% em dezembro, contra 0,25% em novembro.
O IGP-DI não deve ser o único indicador a apresentar aumentos de preços em janeiro. A consultoria Tendências aposta em expressiva recuperação dos Índices Gerais de Preços (IGPs) em janeiro, como o Índice Geral de Preços -10 (IGP-10) e o Índice Geral de Preços - Mercado (IGP-M) usado para reajustar preços de aluguel. "Projetamos um IGP-M em torno de 0,35% para janeiro", afirmou o analista da consultoria Gian Barbosa.
IPCS sobe. A inflação pelo Índice de Preços ao Consumidor Semanal (IPC-S) acelerou bem mais que o esperado nesse início de ano e atingiu o maior patamar desde o começo de setembro, pressionada por maiores custos de alimentos e ônibus. O indicador teve alta de 0,51% na primeira prévia de janeiro, ante alta de 0,24% em dezembro, segundo informou a FGV. Economistas consultados pela Reuters projetavam uma leitura de 0,2% para a abertura do mês, com as estimativas oscilando de 0,15% a 0,55%. "Esta foi a maior taxa de variação, desde a primeira semana de setembro de 2009, quando o índice registrou alta de 0,56%", disse a FGV em nota.
Cinco dos sete grupos do IPC-S tiveram aceleração da alta dos preços nesta primeira leitura, com destaque para Alimentação, com alta de 0,87% ante 0,2% em dezembro. "Dos 21 gêneros alimentícios pesquisados, 16 apresentaram acréscimos em suas taxas de variação, cujo destaque foi o item Hortaliças e legumes", acrescentou a entidade.
Outra pressão de alta veio de Transportes, com elevação de 0,78% na primeira prévia de janeiro, contra 0,3% em dezembro, refletindo o aumento de 1,08% da tarifa de ônibus urbano. As principais altas individuais de preços foram cenoura, mamão papaia, tarifa de ônibus urbano, vagem e alface. (Com agências)